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A velhice e a escuta do sujeito na contemporaneidade

Vivemos mais. A longevidade aumentou e, com ela, a presença de pessoas idosas em nossos consultórios, nas famílias e nos diferentes espaços da vida social. No entanto, viver mais não significa necessariamente encontrar uma sociedade preparada para acolher o envelhecimento, e tampouco significa que os profissionais estejam suficientemente preparados para escutar aquele que envelhece.

A contemporaneidade é marcada por uma forte valorização da juventude, da produtividade, da autonomia e da performance. Espera-se que as pessoas permaneçam ativas, independentes, saudáveis e produtivas pelo maior tempo possível. Nesse cenário, envelhecer pode ser vivido como uma experiência de estranhamento: o corpo se modifica, algumas possibilidades se restringem, lugares sociais se transformam e perdas importantes podem acontecer.

Aposentadoria, saída dos filhos de casa, morte de pessoas queridas, mudanças na sexualidade, adoecimento, alterações corporais e necessidade crescente de cuidados podem fazer parte desse tempo da vida. Mas nenhuma dessas experiências possui, por si só, um significado universal.

Não existe uma única maneira de envelhecer.

Cada pessoa chega à velhice trazendo consigo sua história, seus vínculos, seus desejos, seus conflitos, suas escolhas e a maneira singular como construiu sua relação com a vida e com o tempo.

Por isso, é preciso cuidado para que o idoso não seja reduzido à sua idade, ao seu corpo, às suas perdas ou aos diagnósticos que eventualmente carrega.

Muitas vezes, quando uma pessoa envelhece, outros começam a falar por ela. A família responde, decide, organiza, protege. Profissionais perguntam aos filhos ou aos cuidadores o que está acontecendo. Pouco a pouco, aquele que deveria ocupar o centro de sua própria história corre o risco de tornar-se objeto do cuidado dos outros.

Cuidar é necessário em muitas situações. Mas cuidar não deveria significar apagar o sujeito.

O que pode oferecer uma escuta psicanalítica?

A psicanálise parte de um princípio fundamental: enquanto houver um sujeito capaz de falar de sua experiência, há algo a ser escutado.

O sujeito do inconsciente não se define pela idade cronológica.

Uma pessoa de 70, 80 ou 90 anos continua atravessada por desejos, conflitos, fantasias, lembranças, escolhas e perguntas sobre sua própria existência. Pode continuar produzindo novos sentidos para aquilo que viveu e para aquilo que ainda deseja viver.

A análise não pretende ensinar alguém a “envelhecer bem”, nem oferecer um modelo ideal de velhice. Também não se trata simplesmente de ajudar o idoso a aceitar suas perdas.

Trata-se de oferecer um espaço no qual ele possa falar em nome próprio.

Isso pode significar poder elaborar um luto, interrogar uma repetição que atravessou décadas, reposicionar-se diante dos filhos, sustentar escolhas, construir novas formas de investimento na vida ou simplesmente encontrar palavras para algo que até então permanecia sem possibilidade de elaboração.

Há passado na velhice, evidentemente. Mas há também presente e futuro.

Enquanto há vida, há possibilidade de movimento subjetivo.

Por que os analistas precisam estar preparados?

O aumento da longevidade coloca uma questão importante para a clínica contemporânea: estamos preparados para receber pessoas idosas em nossos consultórios?

Atender um sujeito idoso não significa criar uma “psicanálise para idosos”. Os fundamentos que orientam a direção do tratamento permanecem os mesmos. Entretanto, a velhice apresenta situações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade clínica e capacidade de manejo.

É preciso saber escutar os efeitos das perdas sem transformar toda tristeza em patologia. Reconhecer os limites reais do corpo sem reduzir o sujeito ao organismo. Considerar situações de dependência sem retirar sua autonomia subjetiva. Saber manejar a presença da família e dos cuidadores sem permitir que eles ocupem o lugar daquele que está em análise.

Também é necessário distinguir aquilo que pertence ao processo de envelhecimento daquilo que demanda avaliação médica, neurológica, psiquiátrica ou trabalho interdisciplinar.

Preparar-se para essa clínica significa, portanto, muito mais do que conhecer características gerais da velhice. Significa interrogar nossos próprios preconceitos sobre envelhecer.

Um analista que acredita que, depois de determinada idade, “não há mais muito o que mudar” corre o risco de não escutar justamente aquilo que ainda pode se movimentar.

Uma clínica para um novo envelhecer

Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja construir outras possibilidades de pensar a velhice.

Nem idealizá-la como a “melhor idade”, apagando suas dificuldades, nem tratá-la exclusivamente como tempo de perdas, doença e declínio.

Envelhecer é atravessar um tempo da vida que coloca questões próprias, mas que será vivido de maneira absolutamente singular por cada sujeito.

À medida que a população envelhece, os consultórios também envelhecerão. Pessoas idosas procurarão cada vez mais espaços de escuta, seja por sofrimento psíquico, perdas, conflitos familiares, mudanças corporais, solidão, questões relacionadas à aposentadoria ou simplesmente porque continuam interrogando a própria vida.

A clínica precisa estar preparada para recebê-las.

Não para dizer como devem envelhecer.

Não para adaptá-las a um ideal de velhice saudável, produtiva ou bem-sucedida.

Mas para sustentar um espaço no qual possam continuar falando, desejando, escolhendo e construindo respostas singulares diante daquilo que o tempo lhes apresenta.

Porque o corpo envelhece, o tempo passa e os lugares sociais se transformam. Mas o sujeito não pode ser reduzido à idade que tem.

Escutar aquele que envelhece é, antes de tudo, reconhecer que sua história continua sendo escrita.


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